igido ao seu rosto. Não
se deu conta de ter atingido o chão, mas quando olhou para
cima viu apenas céu. Rolou sobre o flanco e tentou se erguer,
mas o corpo estremeceu-lhe de dor e o mundo começou a
latejar, O cavaleiro que o derrubara aproximou-se. - Tyrion, o
Duende - trovejou. - E meu. Rende-se, Lannister?
Sim, pensou Tyrion, mas a palavra ficou presa na garganta.
Fez um som semelhante a um coaxar e pôs-se de joelhos com
dificuldade, procurando desajeitadamente uma arma. A
espada, o punhal, qualquer coisa...
- Rende-se? - o cavaleiro pairava sobre ele em seu cavalo de
guerra recoberto de armadura. Ambos, homem e cavalo,
pareciam imensos. A bola de hastes rodopiava num círculo
lento. As mãos de Tyrion estavam dormentes, a visão,
desfocada, a bainha da espada vazia. - Renda-se ou morrerá -
declarou o cavaleiro, fazendo rodopiar o malho cada vez mais
depressa.
Tyrion conseguiu pôr-se de pé, atirando a cabeça contra a
barriga do cavalo. O animal soltou um grito terrível e
empinou-se. Tentou libertar-se da agonia da dor, retorcendo-
se, choveram sangue e vísceras sobre a cara de Tyrion e o
cavalo caiu como uma avalanche. Quando deu por si, tinha o
visor tapado com lama e algo lhe esmagava o pé. Conseguiu
libertar-se, com a garganta tão apertada que quase não
conseguia falar.
- ... rend... - coaxou por fim, num fio de voz.
- Sim - gemeu uma voz, espessa de dor.
Tyrion raspou a lama do visor para conseguir ver. O cavalo
tombara para o outro lado, para cima do cavaleiro. Este tinha
a perna presa e o braço que usara para amparar a queda
torcido num ângulo grotesco.
- Rendo-me - repetiu. Apalpando o cinto com a mão capaz,
sacou uma espada e lançou-a aos pés de Tyrion. - Rendo-me,
senhor.
Aturdido, o anão ajoelhou-se e ergueu a arma. A dor atacou-
lhe o cotovelo quando moveu o braço. A batalha parecia ter
se deslocado para a frente. Ninguém permanecia naquela
parte do terreno, salvo um grande número de cadáveres. Os
corvos já voavam em círculos e aterrissavam para se
alimentar. Viu que Sor Kevan trouxera seu centro em suporte
da vanguarda; sua enorme massa de lanceiros tinha
empurrado os nortenhos contra os montes. Lutava-se nas
encostas, com lanças atacando outra muralha de escudos,
agora ovais e reforçados com rebites de ferro. Enquanto
observava, o ar voltou a encher-se de setas, e os homens atrás
da muralha de carvalho ruíram sob aquele fogo assassino.
- Creio que está perdendo, senhor - disse ao cavaleiro sob o
cavalo. O homem não lhe deu resposta.
O som de cascos vindo às suas costas o fez rodopiar, embora
quase não conseguisse levantar a espada devido à tremenda
dor que sentia no cotovelo. Bronn puxou as rédeas e o olhou.
- Acabou por ser de pouco uso - disse-lhe Tyrion.
- Parece que se desembaraçou suficientemente bem sozinho -
respondeu Bronn. - Mas perdeu a haste do elmo.
Tyrion apalpou o topo do elmo. A haste tinha sido
completamente arrancada.
- Não a perdi. Sei perfeitamente onde ela está. Onde está meu
cavalo?
Quando encontraram o animal, as trombetas tinham voltado
a soar, e a reserva de Lorde Tywin desceu numa larga curva
ao longo do rio. Tyrion observou o pai, que passou por ele a
grande velocidade, com o estandarte de carmim e ouro dos
Lannister ondulando sobre sua cabeça enquanto trovejava
pelo campo afora. Rodeavam-no quinhentos cavaleiros, com
a luz do sol arrancando relâmpagos das pontas de suas lanças.
Os restos das linhas dos Stark estilhaçaram-se como vidro sob
o poder daquela carga.
Com o cotovelo inchado e latejando dentro da armadura,
Tyrion não fez nenhuma tentativa de se juntar ao massacre.
Ele e Bronn partiram em busca de seus homens. Encontrou
muitos entre os mortos. Ulf, filho de Umar, jazia num charco
de sangue que coagulava, com o braço desaparecido até o
cotovelo, e uma dúzia de seus Irmãos da Lua espalhados ao
redor. Shagga estava estatelado embaixo de uma árvore,
cravejado de setas, abraçado à cabeça de Cronn. Tyrion
pensou que estivessem ambos mortos, mas, quando
desmontou, Shagga abriu os olhos e disse:
- Mataram Cronn, filho de Coratt - o belo Cronn não
ostentava nenhuma marca além da mancha vermelha que
tinha no peito, onde a lança o matara. Quando Bronn puxou
Shagga e o pôs de pé, o grande homem pareceu reparar nas
setas pela primeira vez. Arrancou-as uma a uma,
amaldiçoando os buracos que tinham feito em suas camadas
de cota de malha e couro e berrando como um bebê com as
poucas que haviam se enterrado na carne. Chella, filha de
Cheyk, aproximou-se enquanto arrancavam as setas de
Shagga e mostrou-lhes quatro orelhas que conseguira.
Descobriram Timett saqueando os corpos dos mortos com
seus Homens Queimados. Dos trezentos homens dos clãs que
tinham seguido Tyrion Lannister para a batalha, talvez
tivesse sobrevivido metade.
Deixou os vivos tratando dos mortos, mandou Bronn tomar
conta do cavaleiro prisioneiro e foi sozinho em busca do pai.
Lorde Tywin encontrava-se sentado junto ao rio, bebericando
vinho de uma taça cravejada de jóias enquanto o escudeiro
desprendia sua pla